Margem bruta por prato e margem líquida: não confundir
Margem bruta de um prato = preço de venda sem IVA − custo dos ingredientes. Um bacalhau à Brás vendido a 14,50 € (12,83 € sem IVA) com custo de 3,45 € tem uma margem bruta de 9,38 €, ou 73% do preço sem IVA.
Margem líquida do restaurante = (vendas sem IVA − todos os custos) ÷ vendas sem IVA × 100. Aqui entram pessoal, renda, energia, comissões, manutenção e tudo o resto.
O erro comum é olhar para os 73% do prato e achar que o restaurante ganha muito. Desses 9,38 €, a maior parte vai pagar salários, renda e luz. Só o que sobra no fim do mês é lucro.
O custo de cada prato calcula-se como explicado em como calcular o custo de um prato.
Os principais custos de um restaurante
- Matéria-prima: comida e bebida (food cost e beverage cost).
- Pessoal: salários, subsídios, encargos com a Segurança Social, seguro de acidentes de trabalho, formação, refeições da equipa.
- Espaço: renda ou prestação, condomínio, IMI se o espaço for próprio.
- Energia e água: eletricidade, gás, água. Câmaras frigoríficas, fornos e extração pesam muito.
- Comissões: terminais de pagamento, plataformas de entregas e de reservas.
- Manutenção: equipamentos de frio, máquina de lavar, exaustão, pequenas reparações.
- Serviços: contabilidade, seguros, software, controlo de pragas, recolha de óleos, lavandaria.
- Marketing: redes sociais, fotografias, publicidade.
- Amortizações e financiamento: obras, equipamento, juros.
Os dois primeiros juntos formam o prime cost e são os que mais variam com a gestão do dia a dia.
Prime cost: o indicador que mais conta
Prime cost = custo da matéria-prima consumida + custo total de pessoal, normalmente expresso em percentagem das vendas sem IVA.
É o indicador mais útil porque junta os dois custos que se podem controlar todas as semanas: o que se compra e se desperdiça, e as horas que se escalam. Uma referência usada com frequência no setor é manter o prime cost por volta de 60% a 65% das vendas. É uma orientação, não uma regra: um restaurante com renda muito baixa aguenta um prime cost mais alto; um com renda alta precisa de um mais baixo.
O prime cost também mostra compensações. Um restaurante de fine dining pode ter food cost moderado e custo de pessoal muito alto; uma marisqueira, o contrário. Olhar só para o food cost esconde metade do problema.
Para baixar a parte do pessoal sem prejudicar o serviço, o ponto de partida é ajustar as escalas à ocupação prevista. Veja escalas e horas da equipa.
Exemplo de contas de um mês
Restaurante fictício com 60.000 € de vendas sem IVA num mês:
| Rubrica | Valor | % das vendas |
|---|---|---|
| Vendas sem IVA | 60.000 € | 100% |
| Matéria-prima consumida | 18.600 € | 31,0% |
| Pessoal com encargos | 20.400 € | 34,0% |
| Prime cost | 39.000 € | 65,0% |
| Renda | 5.500 € | 9,2% |
| Energia, gás e água | 3.000 € | 5,0% |
| Comissões (terminais, plataformas) | 900 € | 1,5% |
| Manutenção | 700 € | 1,2% |
| Contabilidade, seguros, software | 1.400 € | 2,3% |
| Marketing | 600 € | 1,0% |
| Amortizações | 1.500 € | 2,5% |
| Outros | 800 € | 1,3% |
| Resultado antes de impostos | 6.600 € | 11,0% |
Repare no efeito de pequenas variações: se o food cost subir de 31% para 34% por desperdício e porções maiores, são mais 1.800 € de custo e o resultado cai para 4.800 €, ou seja, menos 27% de lucro com apenas 3 pontos de food cost. Os valores deste exemplo servem só para mostrar o método; cada restaurante tem a sua estrutura de custos.
Qual a margem de lucro de um restaurante?
Não existe um número fiável que sirva para todos os restaurantes em Portugal. A margem líquida depende do tipo de casa, da localização, da renda, do preço médio e da ocupação. Em conversas do setor, fala-se muitas vezes de margens líquidas de um só dígito como frequentes, mas a única margem que interessa é a do seu restaurante.
Para a saber, precisa de três números todos os meses:
- vendas sem IVA;
- food cost real, calculado com inventário (veja o guia sobre o food cost ideal);
- custo total de pessoal com encargos.
Com estes três números tem o prime cost; somando os custos fixos, tem o resultado. Peça ao contabilista o balancete mensal e não apenas as contas de fim de ano.
Engenharia de menu: estrelas, vacas, quebra-cabeças e cães
A engenharia de menu cruza dois dados de cada prato: popularidade (quantas doses se vendem) e margem bruta em euros. Um critério comum: um prato é popular se vender pelo menos 70% da média de doses por prato da secção; tem margem alta se ficar acima da margem média ponderada.
Exemplo com quatro pratos principais num mês (1.080 doses, média de 270; limite de popularidade de 189 doses; margem média ponderada de 8,67 €):
| Prato | Doses | Margem bruta | Classificação |
|---|---|---|---|
| Bacalhau à Brás | 420 | 9,38 € | Estrela |
| Bitoque | 390 | 6,07 € | Vaca |
| Polvo à lagareiro | 180 | 13,58 € | Quebra-cabeças |
| Risotto de cogumelos | 90 | 6,77 € | Cão |
O que fazer com cada categoria
- Estrelas (populares e com boa margem): manter receita e qualidade, dar destaque na carta, não mexer no preço sem motivo.
- Vacas (populares, margem baixa): subir o preço aos poucos, rever gramagem ou guarnição, sugerir acompanhamentos com melhor margem.
- Quebra-cabeças (margem alta, vendem pouco): melhorar a descrição, a posição na carta e a apresentação; a sala pode sugeri-los.
- Cães (vendem pouco e deixam pouco): retirar ou reformular. Cada prato a mais na carta é stock parado e desperdício.
Repita a análise a cada mudança de carta ou de três em três meses. Para ajustar preços, use os métodos do guia como calcular o preço de venda de um prato.
Como melhorar a margem de lucro
- Atualizar o custo dos pratos sempre que os preços dos fornecedores mudam.
- Controlar porções com balança no posto e fotografias de empratamento.
- Reduzir o desperdício com FEFO, stock mínimo e preparações ajustadas à ocupação.
- Ajustar escalas às horas de maior movimento, em vez de horários fixos iguais todos os dias.
- Conferir a receção: o que falta ou chega em mau estado deve ser reclamado e descontado.
- Rever a carta com engenharia de menu e retirar os cães.
- Rever contratos de energia, comissões dos terminais e seguros uma vez por ano.
Na Mezzo OS, a margem e o lucro de cada prato atualizam-se com as faturas dos fornecedores e as contas do mês ficam visíveis ao vivo durante o serviço. Saiba mais em ficha técnica com custo do prato.
Ver também
Perguntas frequentes
Qual a margem de lucro de um restaurante?
Não há um valor único: depende do tipo de restaurante, da renda, do preço médio e da ocupação. A margem bruta de cada prato é alta, mas a margem líquida, depois de pessoal, renda e restantes custos, é muito menor.
O que é o prime cost de um restaurante?
É a soma do custo da matéria-prima consumida com o custo total de pessoal, em percentagem das vendas sem IVA. Uma referência usada com frequência é ficar por volta de 60% a 65%, ajustada à renda e ao tipo de casa.
Como se calcula a margem bruta de um prato?
Subtraia o custo dos ingredientes ao preço de venda sem IVA. Para a ter em percentagem, divida esse valor pelo preço sem IVA e multiplique por 100.
Quais são os maiores custos de um restaurante?
Em regra, matéria-prima e pessoal são os dois maiores custos, seguidos da renda e da energia. Juntos, matéria-prima e pessoal formam o prime cost.
O que é a engenharia de menu?
É uma análise que classifica os pratos pela popularidade e pela margem bruta em euros, em estrelas, vacas, quebra-cabeças e cães, para decidir o que destacar, reformular, subir de preço ou retirar da carta.
Experimente no seu restaurante
14 dias grátis, com tudo aberto e sem cartão. Ou veja primeiro a demonstração, sem criar conta.